Mourinho é favorito e deve voltar ao Real Madrid e o futebol europeu nunca foi tão imprevisível

José Mourinho está em negociações finais para voltar ao Real Madrid 13 anos depois. Duas condições não negociáveis, vestiário em crise, Vinicius, Mbappé e a pergunta que ninguém faz: ainda dá certo?

ANÁLISE TÁTICA

Futebol de Alto QI

5/12/20265 min read

Às vezes o futebol escreve histórias que nem o roteirista mais criativo ousaria propor. José Mourinho, 13 anos depois de deixar o Santiago Bernabéu em meio a polêmicas, brigas com jogadores e um relacionamento desgastado com boa parte do vestiário, está a poucos dias de ser anunciado como o novo técnico do Real Madrid para a temporada 2026/27. Segundo a BBC Sport, ele é o único candidato em negociações finais com o clube. A decisão final depende agora do aceite de Mourinho às condições do projeto apresentado pela diretoria merengue.

O contexto é tão dramático quanto o personagem. O Real Madrid encerrou a temporada 2025/26 sem nenhum título, perdeu o campeonato espanhol para o Barcelona, foi eliminado da Champions League antes do esperado e atravessou uma das crises internas mais expostas da história recente do clube, com episódios de indisciplina envolvendo Valverde, Tchouaméni, Rüdiger e a novela de Vinicius Júnior com o técnico Xabi Alonso, o vestiário foi caótico. A diretoria merengue decidiu que o que o elenco precisa não é de um filósofo do futebol. Precisa de um xerife.

Mourinho não aceitou simplesmente receber uma proposta e assinar. Ele fez o que sempre fez ao longo da carreira: estabeleceu as regras antes de entrar no jogo. São duas exigências que ele considera não negociáveis. A primeira é participação real na política de transferências. Não necessariamente indicar nomes específicos, mas ter peso nas decisões sobre quais posições precisam ser reforçadas. Durante sua primeira passagem pelo Real Madrid, entre 2010 e 2013, ele foi responsável pela chegada de Luka Modric, Mesut Özil e Cristiano Ronaldo, jogadores que marcaram uma geração no clube. Ele quer o mesmo nível de influência agora para corrigir o que já identificou como um elenco desequilibrado em setores específicos.

A segunda condição é estrutural. Mourinho quer que as hierarquias do clube sejam respeitadas, com garantia de que o departamento de futebol profissional opere sob uma liderança clara, sem interferências externas que possam desestabilizar o grupo. Em outras palavras: o que o técnico decide dentro do campo de treino e do vestiário é definitivo. Não há espaço para jogador reclamar publicamente de substituição ou para episódios como o de Vinicius Júnior se recusando a cumprimentar o técnico após ser trocado. Se o Real Madrid aceitar essas duas condições, Mourinho assina. A cláusula de rescisão no contrato dele com o Benfica é de apenas 3 milhões de euros, válida por dez dias após o encerramento da temporada portuguesa. A janela se abre em breve e tudo indica que a decisão será tomada nesse intervalo.

As duas condições que Mourinho colocou na mesa

Para entender se Mourinho tem condições de fazer um bom trabalho, é preciso olhar honestamente para o que ele vai encontrar no Bernabéu. O setor defensivo é o que mais preocupa a diretoria. Éder Militão, Ferland Mendy e Dani Carvajal têm situações físicas preocupantes, e existe a possibilidade real de saída de David Alaba ao fim da temporada. Um time que perdeu o campeonato espanhol deixando a defesa sangrar durante meses vai precisar de cirurgia no mercado antes de qualquer trabalho tático funcionar.

No meio-campo, Valverde e Tchouaméni têm qualidade mas protagonizaram um dos episódios de indisciplina que mais desgastou o vestiário nesta temporada. Camavinga, quando saudável, é um dos melhores do mundo na posição. O problema é que o grupo como coletivo perdeu a identidade que o tornava imbatível nos anos de Ancelotti.

No ataque, Vinicius Júnior é o nome mais valioso do elenco mas também o mais politicamente complexo. A relação do brasileiro com a comissão técnica virou uma novela pública que esgotou Xabi Alonso e expôs rachaduras que vão além do campo. Mbappé, contratado com pompa e grande expectativa, ainda não entregou o que se esperava dele consistentemente. Mourinho herdará um elenco de enorme talento individual e questionável coesão coletiva. Se há alguém no futebol mundial com o histórico de transformar isso em funcionamento, esse alguém é ele.

O elenco que ele vai herdar
Como seria taticamente

A primeira passagem de Mourinho no Real Madrid foi marcada por um 4-2-3-1 sólido, com foco em organização defensiva, transições rápidas e aproveitamento máximo da qualidade individual dos atacantes. Ele nunca foi um técnico de posse pela posse. O futebol dele é pragmático, vertical e baseado em equilíbrio entre os setores. Com o elenco atual, é provável que ele mantenha uma estrutura semelhante. Valverde como segundo volante pela direita, função que o uruguaio executa melhor do que qualquer outra. Tchouameni como primeiro volante, protegendo a linha defensiva. Bellingham, no papel de meia avançado com liberdade para aparecer na área.

O problema mais delicado é o ataque. Mourinho historicamente não funciona bem com atacantes que exigem protagonismo absoluto e autonomia tática irrestrita. Vinicius Júnior é exatamente esse tipo de jogador. A relação entre os dois vai ser o fator mais observado da temporada inteira, e a forma como Mourinho escolhe administrá-la vai dizer muito sobre o quanto ele evoluiu como gestor de pessoas nos últimos anos. Mbappé, por outro lado, pode funcionar bem com Mourinho. O francês tem histórico de aceitar estruturas claras quando confia no técnico e o projeto faz sentido. Com liberdade para escolher o lado que prefere e um parceiro de ataque que abre espaço, Mbappé em forma dentro de um sistema mourinhista pode ser devastador.

Mourinho tem 63 anos e um currículo que poucos treinadores vivos podem igualar. Dois títulos da Champions League com clubes diferentes, campeonatos nacionais em quatro países, Copas e Ligas em sequência. O problema é que o Mourinho pós-2016 não é o mesmo de antes. As últimas temporadas no Manchester United, no Tottenham, na Roma e no próprio Benfica mostraram um técnico que ainda sabe organizar times defensivamente mas que perdeu parte da capacidade de construir algo duradouro. No Tottenham, saiu sem títulos. Na Roma, ganhou uma Conference League histórica mas foi demitido depois. No Benfica, a temporada foi dentro do possível.

O que o Real Madrid está comprando é menos o Mourinho táticos dos anos dourados e mais o Mourinho gerenciador de crises. Um homem que entra num vestiário fraturado e reimpose hierarquia através de autoridade, resultados e uma comunicação externa que sempre favorece o grupo em detrimento do indivíduo problemático. Se funcionar nos primeiros seis meses, o projeto tem futuro. Se a relação com Vinicius explodir ou com Mbappé em algum momento público, o ciclo pode ser curto.

Você acha que Mourinho vai conseguir domar o vestiário do Real Madrid ou a história vai se repetir? Deixa sua previsão nos comentários.
O que a história diz sobre as chances de dar certo